Mariana criou sua newsletter no Substack há três anos. Começou como um experimento e, em poucos meses, tinha mais de cinco mil assinantes.
Mariana criou sua newsletter no Substack há três anos. Começou como um experimento — um e-mail semanal sobre economia comportamental explicada para pessoas comuns. Em poucos meses, tinha mais de cinco mil assinantes. Em um ano, ativou as assinaturas pagas e passou a viver exclusivamente da renda da newsletter. O Substack não era apenas uma plataforma: era seu escritório, sua editora, sua livraria e seu banco. Cada segunda-feira, milhares de leitores aguardavam o e-mail com o assunto 'A newsletter da Mariana'. Até que, numa quinta-feira, o e-mail que chegou não era o dela. Era do Substack. E dizia: 'Sua conta foi banida por violação de nossas diretrizes'. Os assinantes pagos receberam um aviso genérico de que a publicação fora encerrada. Os textos sumiram. E os pagamentos pendentes, que deveriam ser depositados naquela semana, simplesmente não chegaram.
O banimento de uma newsletter no Substack é um colapso em múltiplas dimensões. Perde-se o acesso aos textos, que em muitos casos representam anos de trabalho. Perde-se a lista de assinantes, construída um a um, com confiança e consistência. Perde-se a renda recorrente, que para muitos criadores é a única fonte de sustento. E perde-se, talvez o mais doloroso, o vínculo com a comunidade. Os leitores que pagaram pelo conteúdo não têm para quem reclamar. Não há um telefone, não há um chat, não há um e-mail que responda. Apenas uma página de erro e um reembolso automático que não compensa o valor do que foi perdido.

As razões opacas por trás dos banimentos no Substack
O Substack justifica banimentos por violações de suas diretrizes de conteúdo, que proíbem discurso de ódio, assédio, desinformação, spam e conteúdo sexual explícito. A plataforma também monitoriza atividades que considera manipulação de engajamento, como a compra de assinantes ou a utilização de bots para inflar métricas. Na prática, porém, muitos banimentos ocorrem por gatilhos automatizados ou denúncias coordenadas. Um texto que discute temas controversos — aborto, política partidária, reforma tributária — pode gerar ondas de denúncias de leitores ofendidos, que o algoritmo interpreta como evidência de violação. A plataforma, ao banir, não diferencia entre discurso legítimo e discurso ilícito: apenas conta denúncias e aplica a punição.
Outro problema recorrente é a política de pagamentos. O Substack retém uma parcela significativa de cada assinatura e, quando uma conta é banida, pode reter pagamentos pendentes alegando necessidade de análise. O criador, que dependia daquele dinheiro para pagar contas, fica sem o conteúdo e sem a renda. O processo de recurso é um formulário digital que raramente gera resposta satisfatória. E, ao contrário de uma editora tradicional, não há um editor humano com quem negociar, argumentar ou pleitear. A relação é puramente algorítmica — e o algoritmo, por definição, não ouve.

A defesa jurídica do criador de conteúdo assinado
A relação entre criador e Substack configura, indiscutivelmente, uma relação de consumo. O autor paga uma comissão sobre cada assinatura em troca de uma infraestrutura de publicação, distribuição e processamento de pagamentos. O Código de Defesa do Consumidor protege o consumidor contra práticas abusivas, cláusulas contratuais excessivamente onerosas e a privação de acesso a serviços sem justa causa. O banimento sem justificativa fundamentada, sem direito a defesa e sem restituição dos valores retidos configura abuso de poder econômico. Além disso, a retenção de pagamentos já recebidos de assinantes pode ser questionada como lesão ao direito de propriedade.
O Marco Civil da Internet reforça que provedores de aplicações devem justificar restrições de acesso e respeitar a liberdade de expressão. A Lei Geral de Proteção de Dados protege os dados pessoais dos assinantes e do autor, impedindo que a plataforma os retenha ou utilize indevidamente após o banimento. E a jurisprudência brasileira, em casos análogos envolvendo plataformas digitais, tem sido favorável à reativação de contas e à restituição de valores por meio de tutela de urgência. A simples citação judicial, muitas vezes, é suficiente para que a plataforma revise sua decisão com a seriedade que o caso merece.
“Um assinante não é apenas um número. É uma pessoa que confiou seu dinheiro e sua atenção a um criador. E nenhuma plataforma tem o direito de romper esse vínculo sem explicar por quê.

Como se proteger antes do banimento
Criadores de newsletters devem manter backups completos de todos os textos publicados, preferencialmente em formatos editáveis e independentes. Ter uma lista de e-mails própria, fora da plataforma, é a principal forma de reduzir a dependência fatal do Substack. Documentar todos os pagamentos recebidos, taxas cobradas e comunicações com o suporte fortalece a posição jurídica. Manter um site próprio ou um blog paralelo também diversifica o canal de comunicação com os leitores. E, acima de tudo, tratar a newsletter como um ativo empresarial sujeito a direitos e proteções é o que permite que a Justiça atue quando a plataforma excede seus limites.
Mariana, depois de duas semanas de incerteza e com a ajuda de advogados especializados, obteve uma liminar que obrigou o Substack a reativar sua conta, restaurar seus textos e liberar os pagamentos retidos. Os assinantes voltaram a receber os e-mails de segunda-feira, a renda foi restabelecida e a comunidade, ao saber do ocorrido, se mobilizou para apoiá-la. Hoje, Mariana mantém uma lista de e-mails própria, um site independente e uma newsletter espelho em outra plataforma. Porque ela aprendeu que, por mais valiosa que seja a infraestrutura do Substack, a verdadeira segurança está em saber que, quando alguém fecha uma porta digital, a lei pode abri-la de novo.
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